Em homenagem as infâncias que já passaram, mas que emocionam ao resgatar o puro...
Com fama de velho rabugento e antissocial, o velho morava sozinho na montanha e, um belo dia, recebeu a visita da sobrinha Odete, trazendo a tiracolo a pequena Heidi, órfã de sua irmã, para o avô cuidar, enquanto ela se mudava para a cidade grande em busca de emprego. O avô não gostou da ideia de receber o pequeno “encargo”, pois não tinha experiência em cuidar de crianças além de não ter mais idade pra isso, mas a tia abandonou Heidi lá e foi embora.
Aos poucos, a fama de velho ranzinza se desfaz quando, com a convivência, Heidi percebe que o avô é amável e gentil. A chegada da criança também muda o coração do velho, que passa a ser mais sociável e solidário. A história explora a inocência e a pureza da menina diante das coisas. Um simples banquinho de madeira feito pelo avô para que ela alcançasse a mesa é motivo para festa. Heidi também conhece Pedro, o pastor de ovelhas, que diariamente ia pegar as ovelhas do avô e levá-las para o pasto. A menina passou a acompanhar o garoto e os dois se tornaram grandes amigos. Assim, o que começou como um peso, tanto para a menina quanto para o avô, se tornou a realização da vida de ambos.
Mas tudo isso acabou quando tia Odete voltou para buscar Heidi e levá-la para Frankfurt, numa casa em que trabalhava, a fim de que a menina fizesse companhia para uma garota rica e paraplégica. A dor da separação fez o velho avô voltar a ser ranzinza novamente e a menina tornou-se depressiva e triste, tanto pela falta das coisas que vivia em seu cotidiano como pela ausência do amado avô. Para piorar, ainda era constantemente judiada pela governanta da casa, a Srta. Rottenmeyer, que exigia da pobre garota um comportamento de uma dama, esquecendo-se que ela estava acostumada à liberdade da vida nas montanhas. A governanta implicou até com seu nome e passou a chamá-la de Adelaide, seu nome de batismo. Por coincidência, esse era o nome da minha professora de Português, de quem eu gostava muito.
Heidi fez grande amizade com Clara, a menina paraplégica, e se tornou quase como uma irmã para ela. Mas a vida na cidade grande se tornou um sofrimento para a jovem, que reprimia os sentimentos para não entristecer “Clarita”, mas quando estava sozinha, chorava e sofria muito. Não tardou e Heidi adoeceu e o pai de Clara, que era médico, deu o único diagnóstico possível: devolver Heidi para seu verdadeiro lar. A menina nunca perdeu contato com Clarita, pois ambas se correspondiam constantemente. Por causa disso, o pai de Clara achou que seria bom para a saúde da filha enviá-la para passar uns dias nas montanhas com a amiga.
O ar puro das montanhas, a pureza do leite ordenhado na hora e a companhia de Heidi fizeram um verdadeiro milagre: o trauma que fez Clara perder os movimentos foi curado e a menina voltou a andar. A animação mesclava esses momentos de humor, drama, ternura com as belas paisagens suíças e personagens cativantes. Era impossível não se envolver e não se apaixonar pela história. Quem acompanhou o desenho sabe do que estou falando.
Algum tempo depois, descobri que o desenho foi baseado num clássico da literatura e tratei logo de adquirir o livro. Lançado pela Ediouro, o livro Heidi terminava quando a menina voltava para as montanhas e recebia uma carta dizendo que Clara ia visitá-la. A continuação da história estava em outro livro Outra Vez Heidi, que ganhei de presente de aniversário três anos depois de ter comprado o primeiro. Nem é preciso dizer que li e reli as obras incontáveis vezes. Anos depois, ganhei da mesma pessoa que me deu o segundo livro, uma outra versão da obra lançada pela Abril Cultural na década de 70, com a história completa. Os três livros fazem parte da minha biblioteca.
A história continua em carne e osso
A animação nunca mais foi exibida – parece-me que chegou a ser reprisada mais uma vez, mas depois desta reprise, desapareceu para sempre – mas Heidi ainda voltou ao SBT em forma de longametragem com atores reais, cerca de 10 anos depois da animação. O filme As novas aventuras de Heidi é um filme de 1978 e mostra o avô com uma doença degenerativa que o deixa cego e o drama da menina em sentir que vai perder aquele que mais ama na vida e sua busca para curá-lo.
Em 1991, enquanto realizava um trabalho de rua, uma surpresa. Ao entrar em uma loja de discos para olhar as novidades, eis que me deparo com um LP (sigla para long play, os discos de vinil que antecederam o CD) com a trilha sonora oficial da animação, que eu nem sabia que existia. Não comprei no dia, mas arrependi-me amargamente. Dias depois, voltei à mesma loja na esperança de encontrá-lo ainda e, para minha felicidade, o disco ainda estava lá. Além das músicas da série (Vovozinho, Diga-me; Canção de Ninar; Copo de Neve e Eu; Pedro e Eu; Hora de Dormir e Olha Lá) as outras faixas narravam a história do desenho. Queria postar aqui o clássico tema de abertura, mas a voz aguda da intérprete tornou impossível a transcrição literal da música. Lamento…
Finalmente, com a era do DVD, adquiri também um disco com o desenho feito pela produtora Good Times, no qual Heidi é chamada de “Raid” (pronúncia que lembra um nome de inseticida) e sem a magia do original. Impossível contar, em 50 minutos, uma história tão rica e cheia de detalhes. De qualquer forma, é a única que existe, já que a animação japonesa não existe em DVD, pelo menos, não na versão brasileira. Há sim, uma versão lançada em Portugal, dublada com o português de lá, que circula pela Internet. Apesar do sotaque soar estranho, pode ser a única forma de (re) ver um desenho tão encantador, que marcou uma geração e despertou, não apenas em mim, mas em muitos outros, o interesse pela literatura e pelo conhecimento da cultura de países europeus.