A escola, em todos os seus níveis pode, e deve, dar uma importante contribuição para a plena compreensão dos múltiplos aspectos de uma adoção. Essa contribuição se dará, principalmente, na reformulação do conceito de paternidade e maternidade, entendido não apenas como derivado de uma relação biológica, mas também, e sobretudo, como conseqüência de uma relação afetiva, construída dia após dia.
É preciso levar em conta que a relação familiar está baseada não apenas no ato da procriação, mas também, e especialmente, no relacionamento afetivo e formativo que é criado. É preciso distinguir entre filiação e procriação. Este último é ligado apenas ao fato biológico, o primeiro é mais complexo.
"Ter nascido de" não significa "ser filho de". Afirmar que dos vários elementos seja mais importante a procriação, é contradizer à moral e à supremacia das questões do espírito sobre aquelas biológicas e também à atual visão científica sobre a importância relativa da hereditariedade e da educação na formação do homem.
Por outro lado, tais relações afetivas e formativas não se fazem numa só direção. Se é verdade que os genitores contribuem para a formação da personalidade dos filhos, é também verdade que os filhos exercem uma influência, às vezes decisiva, sobre a personalidade de seus pais.
A Representação da Família nos Livros
Observa-se uma dificuldade em encontrar, no mercado editorial escolar, livros que apresentem a paternidade e a maternidade não apenas como conseqüência do fato biológico, mas principalmente como derivados de uma relação afetiva que cresce dia-a-dia e se consolida – de ambas as partes – com o tempo.
Por isso, é muito importante que os docentes, as associações de pais, os institutos de pedagogia, os autores dos livros e as editoras, em conjunto, enfrentem o problema da família na sua realidade atual. É muito importante que contribuam positivamente para modificar as percepções dos papéis familiares, para tornar possível o confronto entre imagem (dos livros) e realidade para cada educador, para cada criança.
Com as mudanças vividas em nossa sociedade, com o advento das novas formações familiares, encontram-se em transformação nossos sistemas de relacionamento familiar, as relações de sangue podem estar perdendo a sua importância em favor das relações por afinidade, unidas por laços de afeto. E essa nova realidade deve ser levada em conta nos livros utilizados pelos professores, livros que ajudarão a moldar as percepções dos jovens alunos, formando suas representações da realidade.
Umas das preocupações é o confronto existente, para o professor, entre o modelo de comportamento que ele interiorizou, e idealizou, com a família real. Para os alunos, o confronto se dá entre a imagem da família apresentada nos livros, e a percepção que eles têm de sua experiência direta. Algumas vezes esse confronto pode ser fonte de dificuldades emotivas, sentimentos de estranheza. Para os professores, esse confronto pode ter um papel importante em suas expectativas, em seus condicionamentos culturais, na qualidade de sua intervenção na mediação entre os conteúdos apresentados nos livros e a realidade de seus alunos, e no estabelecimento de uma relação positiva entre eles, crianças e os pais.
Finalmente, os poucos estudos realizados nesta área revelam que os livros escolares ainda utilizam, em sua grande maioria, os estereótipos que caracterizam o modelo da família "oficial", em que o conceito de paternidade e maternidade está exclusivamente baseado nas ligações biológicas.
Crianças Adotivas e Prática Didática
Uma das mais graves questões da escola moderna é a de buscar compreender as exigência específicas do contexto sócio-cultural e dos recursos próprios dos alunos. É preciso considerar a variedade das situações familiares de cada criança e adolescente. Além disso, é preciso evitar posições arbitrárias que possam entrar em confronto direto entre as orientações dos pais e aquelas apresentadas pelos educadores. Esse confronto pode ser fonte de desorientação para alguns alunos.
Um exemplo. Uma criança adotada já grande, e por isso bem informada de sua condição, volta para casa pedindo aos seus pais que ajudem a compor a história fotográfica de sua vida, do nascimento até aquele dia, de forma a cumprir a tarefa determinada pela professora (que não havia pensado nos alunos adotados ao propor aquele tema). Aqui, mesmo os mais bem preparados podem estar, de um momento ao outro, frente a dificuldades imprevistas. Neste caso, a mãe não queria apoiar a filha, que tendia a resolver o problema enganando seus colegas, mas ficava paralisada frente ao temor de que a filha deveria expor-se sozinha à curiosidade intrigante de seus companheiros.
Na verdade, a simples informação acerca do status familiar da criança não é suficiente, se esta não se segue algumas indicações precisas de comportamento e, por conseqüência, que os educadores procurem se aprofundar sobre essa temática, criando situações que lhes permitirão uma efetiva formação nesta área.
É necessário reconhecer que, na ausência de uma formação específica sobre os diversos aspectos de uma adoção, ou de uma colocação familiar temporária, os alunos que vivem essa realidade podem vivenciar os sentimentos e expectativas incompreensíveis para o professor. Podem, por exemplo, levá-lo a manifestar uma proteção especial ao aluno, ou criar mitos sobre sua origem, ou ainda, atribuir aos pais biológicos tudo aquilo que ele considera inaceitável na criança, procurando as causas na hereditariedade ou nas carências afetivas vividas no meio origem.
Dizer Sempre a Verdade à Criança
É preciso sempre lembrar que o relacionamento pais-filhos, para que seja saudável, deve estar baseado na verdade e no respeito da situação real, o que é importante também para a experiência escolar. A "conjuração do silêncio" não é útil a ninguém. A necessidade de dizer a verdade à criança (não uma única vez, mas por meio de um contínuo diálogo familiar sobre a situação de pais e filhos adotivos) vale para todas as crianças, independentemente da idade com que entraram na nova família. Esse diálogo evitará aquela situação perigosa que surge entre a criança que sofreu e não deseja pensar no seu sofrimento, e o adulto que teme a dor da criança e prefere não enfrentá-la, racionalizando seu comportamento com a "necessidade de não fazê-la sofrer mais uma vez". A manutenção dessa situação não ajuda a criança.
Pesquisas realizadas com jovens adotados que completaram 18 anos revelaram uma correlação estatisticamente significativa entre silêncio na família, baixo êxito escolar e problemas relacionados com a pouca capacidade de aplicação nos estudos. Bowlby nos fala de uma "fadiga de pensar" naquelas crianças que foram levadas pelos adultos a "não pensar" nos eventos ansiógenos da sua vida passada, e que gradativamente perdem sempre mais espaços de elaboração mental, com o temor de que revivam aquelas recordações que ‘não devem ser revividas’.
Françoise Dolto, psicanalista francesa, deu neste sentido uma grande contribuição à educação. Reconhecer a legitimidade do direito a uma palavra verdadeira, e do desejo de conhecer, é uma coisa que todo educador (seja ele pai ou professor) deve sempre fazer, ainda quando isso pareça ser mais difícil. Ela nos diz: "As crianças das quais esconde-se a verdade, perdem pouco-a-pouco a sua energia vital, porque não têm a palavra para dizer onde está o seu sofrimento. É preciso dizer logo a verdade para que elas possam viver as emoções da adoção, ao mesmo tempo, com toda a família. Falar com elas a verdade e escutar aquilo que desejam ou podem dizer, do ponto de vista delas. O importante é permanecer em comunicação com os outros. Quando há comunicação, há sempre a possibilidade de prazer, de alegria, com aqueles que falam honestamente, não com aqueles que fingem".
Alguns poderiam dizer que na adoção de recém-nascidos, seria possível "ir levando", sem que ninguém saiba, ainda que os pais sintam que uma eventualidade pode colocar o "segredo" em risco, com os parentes, os amigos, os vizinhos. Mas, se é verdade que a criança passa a conhecer o mundo e a vida através de seus pais, e se ela percebe a realidade mais por meio daquilo que os pais são do que pelo que eles dizem, cabe perguntar se uma relação baseada na falsidade ajuda efetivamente a criança a crescer, ou se acaba por criar dificuldades para o seu desenvolvimento harmonioso. Finalmente, pais e professores precisarão compreender que "não falar", na verdade significa falar de uma outra forma, sempre muito confusa para a criança. A não informação é uma informação.
Frente a esta realidade, a escola não pode se mostrar despreparada. O problema daquela menina, referida anteriormente, convidada pela professora a levar para a escola a história fotográfica de sua vida, foi resolvida com a eficácia da simplicidade, com a verdade. A mãe, a filha e a professora chegaram a um acordo. Enquanto os colegas levaram o álbum com as fotografias, a mãe adotiva foi até a sala de aula contar a história do nascimento e da vida de sua filha, para a grande alegria da menina, que viu assim ter uma mãe considerada como ‘verdadeira’ por todos os seus colegas.
Luisa Alloero
Marisa Pavone
Aura Rosati